Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves no Palácio de Cristal



Letra: Sérgio Godinho

Música: Hélder Gonçalves
in Corrente, Clã.

O nosso amor
está no lugar exacto
artesanato
de calor apurado

Bicicleta
em roda livre e secreta
livre é a meta
desta vida inexacta

Setembro é mesmo
o começo do ano
sim, o vento mudou
cai o pano

Artesanato
exercício de estilo
intencionalmente
tão perfeito e inexacto

Matérias do corpo
tão particularmente
num pega e despega
frequente

Toca que toca
Setembro é chegado
sim, o vento mudou
dá de lado

Ai Ui
Ei por onde é que andaste
a subir escarpas
e a descer ao regato
Oi Ei
Ai que falta me fez
o teu artesanato

Escultura
pés de barro perenes
por vocação
tão espessos, tão ténues

por intuição
molda-se a mão à pele
não sabe do amor
quem só quer saber dele

Folha caduca
Setembro é chegado
nunca varre o vento
o passado

Artesanato
acto eléctrico acústico
mesmo rústico
se sofisticado

Matérias do corpo
tão particularmente
num pega e despega
frequente

Ai Ui
Ei por onde é que andaste
a subir escarpas
e a descer ao regato
Oi Ei
Ai que falta me fez
o teu artesanato

eu ninguém
eu ninguém comigo só
posso ser
travesti de quem quiser
manequim de bazar
ou rainha do lar
madame butterfly
barbie suzie dolly polly pocket

tudo bem
mas eu posso ser também
emanuelle
lady miss mademoiselle
num harém meretriz
ou apenas actriz
o espelho me diz
gueixa vénus eva dama virgem mãe

é que eu sei
o que eu sou e o que não sou
mas é claro
o que eu for eu sou
sem ninguém
só o que eu tenho a saber
é quem de nós cem
hoje eu vou ser

sei lá sei lá
sei lá sei lá
sei lá sei lá
sei lá

Vejo que estás mais crescida
Já dobras a frustração
Bates com a porta ao mundo
Quando ele te diz não

Envolves o teu espaço
Na tua membrana ausente
Recuas atrás um passo
Para depois dar dois em frente

Amuar faz bem
Amuar faz bem

Ficas descalça em casa
A fazer a tua cura
Salva por um bom amuo
De fazer má figura

Amanhã o mundo inteiro
Vai perguntar onde foste
E tu dizes apenas
Que saíeste, viajaste

Amuar faz bem
Amuar faz bem

Nada como um bom amuo
Apenas um recuo quando nada sai bem

E depois voltar
Como se nada fosse
E reencontrar o lugar
Guardado por um bom amuo

Mariana Pais
Diz-me pra aonde vais
Com essa sede de ter mundo?
Vou até ao fundo
E esgravato só
Os meus sonhos mordem pão de trigo
E mordem pão-de-ló
Hoje é dia das esperanças
Se hoje danças, logo pensas
Pensas ao vento da viagem
Houvesse amor numa outra margem
Hoje é já manhã
Outra tarde vã
Mariana, agora é que era
Tudo é já premente
E é sempre ponto assente
Cumprir as promessas
Sem ter por onde prometer
Hoje é dia das esperanças
Se hoje danço, logo penso
E penso ao vento da viagem
Houvesse vida noutra margem
Penso no futuro
Em morder o pão duro
E ter ao espelho as incertezas
Que tenhas acesas
As palavras certas
Vive onde houver gente
E faz da gente porta aberta
Hoje é dia das esperanças
Se hoje penso, logo danço
Danças ao vento da viagem
Houvesse amor e vida na outra margem
Mariana Pais, diz-nos em que cais
Vais desembarcar inteira
Saber da maneira
Saber da cidade
Os meus sonhos são de laços
E também são de liberdade

O sonho dos meus amigos é ter um gti
Não importa de que marca, de que cor
O sonho dos meus amigos é ter um gti
Não importa se inglês ou japonês

Eu ando pensativo
Porque não tenho esse sonho
Ando a pensar qual motivo
Porque não sonho com um gti

O sonho dos meus amigos é ter um gti
Não importa de que marca, de que cor
O sonho dos meus amigos é ter um gti
Não importa se inglês ou japonês

Os meus amigos riem-se de mim
Por ser feliz assim sem sonhar, com um gti
Eles não sonham que me basta ter-te a ti
A sonhar comigo desde que te conheci

O sonho dos meus amigos é ter um gti
Não importa de que marca, de que cor
O sonho dos meus amigos é ter um gti
Não importa se inglês ou japonês

Desde que seja um gti
Desde que seja um gti
P'ra que quero um gti
Se me basta ter-te a ti...
Eu não quero um gti
Deita fora o gti
P'ra que quero um gti
Só me basta ter-te a ti...

Vieste comigo
nesse jeito pós-moderno
de não querer saber nada
de não fazer perguntas
essa pose cansada
tão despida de emoção
de quem já viu tudo
e tudo é uma imensa
repetição

não fosse a minha competência para amar
e nunca teriamos acontecido
num mundo de competências
e técnicas de ponta
a dádiva da fala
quase já não conta

depois quase ias embora
desse modo
evanescente
não soubesse eu ver-te
tão transparente
e teria sido apenas
o encontro acidental
uma simples vertigem
dum desporto radical

não fosse a minha competência para amar
e nunca teriamos acontecido
num mundo de competências
e técnicas de ponta
a dádiva da fala
quase já não conta

Canção sem final

"Podem decretar o fim da arte
É como decretar o fim da chuva"
Há sempre alguém que sonha em qualquer parte
E a nossa voz nunca será viúva

Podem decretar o fim do pão
Espalhar pela seara uma alcateia
Mas quem nasce a fazer a divisão
Pode morrer pela última ceia

Podem dizer pra estarmos calados
E sim, seremos o que deus quiser
Para que a gente não vire soldados
Podem decretar um deus qualquеr

Podem decretar mandar calar-tе
Dizer que a nossa voz é um enguiço
Podem decretar o fim da arte
E a gente faz uma canção sobre isso


Tudo no amor
Faz do nada um tudo
O olhar mais agudo
Navego

Mas já que o amor é cego
And love is a crazy game
Por amor ceguei-me
Cheguei-me

De bengala branca
Tacteei no escuro
De bengala rosa
Por amor procuro

Uma flor secou
E em botão renasce
Será que traz veneno
E a paixão desfaz-se

Tudo no amor
Vive com o fantasma
Que viver em ti
Ele é cego e vê
E eu ceguei e vi
É do amor a sombra
E é da sombra a luz
É da sombra o amor
E é do amor a luz

Se por paixão carrego
O mundo todo às costas
Diz-me só se queres
Se gostas

Gostarás de ti
Ao gostares de mim?
O abrir e fechar de olhos
Traz outra cor aos olhos?

Bebemos então
Tão e tudo a isso
Veneno e o seu contrário
Por amor remisso

Tudo no amor
Vive com o fantasma
Que viver em ti
Ele é cego e vê
E eu ceguei e vi
É do amor a sombra
E é da sombra a luz
É da sombra o amor
E é do amor a luz

Tudo no amor
É luz

Capitão Romance

Não vou procurar quem espero
Se o que eu quero é navegar
Pelo tamanho das ondas
Conto não voltar
Parto rumo à primavera
Que em meu fundo se escondeu
Esqueço tudo do que eu sou capaz
Hoje o mar sou eu
Esperam-me ondas que persistem
Nunca param de bater
Esperam-me homens que resistem
Antes de morrer
Por querer mais do que a vida
Sou a sombra do que eu sou
E ao fim não toquei em nada
Do que em mim tocou

Eu vi
Mas não agarrei

Parto rumo à maravilha
Rumo à dor que houver pra vir
Se eu encontrar uma ilha
Paro pra sentir
E dar sentido à viagem
Pra sentir que eu sou capaz
Se o meu peito diz coragem
Volto a partir em paz

Eu vi
Mas não agarrei

Sexto andar

(Carlos Tê/ Hélder Gonçalves)

Uma canção passou no rádio
E quando o seu sentido
Se parecia apagar
Nos ponteiros do relógio
Encontrou num sexto andar
Alguém que julgou
Que era para si
Em particular
Que a canção estava a falar

E quando a canção morreu
Na frágil onda do ar
Ninguém soube que ela deu
O que ninguém
Estava lá para dar
Um sopro um calafrio
Raio de sol num refrão
Um nexo enchendo o vazio
Tudo isso veio
Numa simples canção

Uma canção passou no rádio
Habitou um sexto andar

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