JP Simões canta Zé Mário Branco na Câmara Municipal de Matosinhos

Maio, maduro maio, quem te pintou
Quem te quebrou o encanto, nunca te amou

Raiava o Sol já no sul
Ti-ri-tu-ri-tu-ri-tu-ru
Ti-ri-tu-ru-tu-ru
E uma falua vinha lá de Istambul

Sempre depois da sesta chamando as flores
Era o dia da festa, maio de amores
Era o dia de cantar
Ti-ri-tu-ri-tu-ri-tu-ru
Ti-ri-tu-ru-tu-ru
E uma falua andava ao longe a varar

Maio com meu amigo quem dera já
Sempre no mês do trigo se cantará
Que importa a fúria do mar
Ti-ri-tu-ri-tu-ri-tu-ru
Ti-ri-tu-ru-tu-ru
Que a voz não te esmoreça, vamos lutar

Numa rua comprida, El-rei pastor (numa rua comprida)
Vende o soro da vida que mata a dor (vende o soro da vida)
Anda ver, maio nasceu
Ti-ri-tu-ri-tu-ri-tu-ru
Ti-ri-tu-ru-tu-ru
Que a voz não te esmoreça, a turba rompeu
Que a voz não te esmoreça, a turba rompeu (rompeu)

Do que um homem é capaz?
As coisas que ele faz
Pra chegar aonde quer

É capaz de dar a vida
Pra levar de vencida
Uma razão de viver

A vida é como uma estrada
Que vai sendo traçada
Sem nunca arrepiar caminho

E quem pensa estar parado
Vai no sentido errado
A caminhar sozinho

Vejo gente cuja vida
Vai sendo consumida
Por miragens de poder

Agarrados a alguns ossos
No meio dos destroços
Do que nunca vão fazer

Vão poluindo o percurso
Com as sobras do discurso
Que lhes serviu pra abrir caminho

À custa das nossas utopias
Usurpam regalias
Pra consumir sozinhos

Com políticas concretas
Impõem essas metas
Que nos entram casa adentro

Como a trilateral
Com a treta liberal
E as virtudes do centro

No lugar da consciência
A lei da concorrência
Pisando tudo pelo caminho

Pra castrar a junventude
Mascaram de virtude
O querer vencer sozinho

Ficam cínicos brutais
Descendo cada vez mais
Pra subir cada vez menos

Quanto mais o mal se expande
Mais acham que ser grande
É lixar os mais pequenos

Quem escolher ser assim
Quando chegar ao fim
Vai ver que errou o seu caminho

Quando a vida é hipotecada
No fim não sobra nada
E acaba-se sozinho

Mesmo sendo os poderosos
Tão fracos e gulosos
Que precisam do poder

Mesmo havendo tanta gente
Pra quem é indiferente
Passar a vida a morrer

Há princípios e valores
Há sonhos e amores
Que sempre irão abrir caminho

E quem viver abraçado
Na vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho

E quem morrer abraçado
À vida que há ao lado
Não vai viver sozinho

Sopram ventos adversos
Junto à praia que se quis
E há sentimentos dispersos
Que são barcos submersos
No mar do que se não diz

Nos mastros que vão quebrar
Soltas velas de cambraia
E é cada remo a tentar
Menos um barco no mar
Mais um cadáver na praia

O dia nunca alcançado
Morre em todas as marés
E é sempre dia acabado
Junto ao sargaço espalhado
De tudo o que se não fez

Sopram ventos adversos
Junto à praia que se quis

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui pr'aquilo que serei

Foi há tantos anos, foi há dois mil anos
Que vi no amor o meu Cristo
Que me mostraste um amor imprevisto
Que me falaste na pele e no corpo a sorrir
Meus olhos fechados, mudos, espantados
Te ouviram como se apagasses
A luz do dia ou a luta de classes
Meus olhos verdes, ceguinhos de todo para te servir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui pr’aquilo que serei

Filhos e cadilhos, panеlas e fundilhos
Metestе as minhas mãos à obra
E encontraste momentos de sobra
Para evitar que o meu corpo pensasse na vida
Teus olhos fechados, mudos e cansados
Não viam se verso, se prosa
O meu suor era o teu mar de rosas
Meus olhos verdes janelas de vida fechados por ti

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui pr’aquilo que serei

Pegas-me na mão e falas do patrão
Que te paga um salário de fome
Do teu patrão que te rouba o que come
Falas contigo sozinho p'ra desabafar
Meus olhos parados, mudos e cansados
Não podem ouvir o que dizes
E fico à espera que me socializes
Meus olhos verdes, boneca privada do teu bem estar

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui pr’aquilo que serei

Sou tua criada boa e dedicada
Na praça, na casa e na cama
Tu só me vês quando vestes pijama
Mas não me ouves se digo que quero existir
Meus olhos cansados ficam acordados
De noite chorando esta sorte
De ser escrava p'rá vida e p'rá morte
Meus olhos verdes vermelhos de raiva para te servir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui pr’aquilo que serei

A tua vontade, justiça, igualdade
Não chega aqui dentro de casa
Eu só te sirvo para a maré vaza
Mas eu já sinto a minha maré cheia a subir
Meus olhos cansados abrem-se espantados
P'rá vida de que me falavas
P'ra combater contra os donos de escravas
Meus olhos verdes que te vão falar e que tu vais ouvir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Sei aquilo que fui e que jamais serei

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!

Mariazinha, deita os olhos pro mar
Pela tardinha, quando a noite espreitar
E no verde das águas sem fundo
Já se perde da esperança do mundo, a afundar, a afundar
Mariazinha, deita os olhos pro mar
Tão pequenina, sem saber que pensar
Vê a roda do mundo girando
E os navios ao longe passando, sem parar, sem parar

Mariazinha, deita os olhos pro mar
Tão quietinha, a chorar, a chorar
Uma fonte de sangue no peito
Uma sombra na boca e um trejeito no olhar, sem parar

Mariazinha, deita os olhos pro mar
Tão caladinha, a chamar, a chamar
Vai pro fundo da noite fria
Numa barca de rendas, vazia, a afundar, sem parar

Mariazinha, com rendas de algas tapada
Tão quietinha
No fundo do mar pousada

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
E a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda

A luz é tão cega
Que nunca se entrega
Só se deixa ver numa razão de ser
Sem sequer entender
Os olhos que a vão receber
E o rasto que fica
É uma coisa antiga
Que a gente tem para dar
E só pode encontrar
Quando volver a procurar

Salvo pelo amor
Só se pode ser salvo pelo amor
O sentido perdido.. ganhador
Não tem Deus nem senhor
Esta dor
Anda a solta por aí
Que eu bem a vi
Ai sе eu pudesse parar
Sе eu vos pudesse contar
Salvo pelo amor
Não existe derrota para a dor
Com o seu capital triturador
Não tem deus nem senhor
É simplesmente dor
Que o que faz questão de ser
Sem entender
Que a vida toda surgiu
Dum sol que nunca se viu
Nem sei se existe

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