Trovante no Pavilhão Rosa Mota

Cada apitadela tem uma história p′ra contar
De uma composição, que vai rolando sem parar
Assim como o caminho da toada popular,
Que não se agarra a uma maneira
Ou forma de cantar.

Pouca terra me foi dada no caminho p'ra rolar
Onde não tem cor a pedra, que parece sempre igual,
Mas dos trilhos e lados nascem roseirais,
Que dão força ao meu fogueiro, que embala o meu andar.

Tantas vezes que rolei neste trilho sem ter fim
Onde apenas tinha o verde e o azul para mirar
O verde era do rio, o azul era do Sol,
Que tinha os tons da Lua cheia
Quando chapinha no mar.

Era a Lua que me amava nas noites de pouca terra
E me dizia então
Sopra o vapor desta guerra
Que assim como tu rolas, como quem não quem parar,
Segue a vida e vai-se a morte da toada popular.

Era a Lua que me amava nas noites de pouca terra
E me dizia então
Sopra o vapor desta guerra
Que assim como tu rolas, como quem não quem parar,
Segue a vida e vai-se a morte da toada popular.

Ó castelos moiros, armas e tesoiros
Quem vos escondeu
Ó laranjas de oiro que ventos de agoiro
Vos apodreceu

Há choros, ganidos, à luz das cavernas
Onde as bruxas moram
Onde as bruxas dançam, quando os mochos amam
E as pedras choram

Caravelas, caravelas
Mortas sob as estrelas
Como candeias sem luz
Os padres da inquisição
Fazendo dos vossos mastros
Os braços da nossa cruz
Caravelas

As bruxas dançam de roda
Entre o visco dos morcegos
Dançam de roda raspando
As unhas podres de tojo
Na noite morta do fogo
Como num tambor de ronjo.

Ribeirinho, ribeirinho
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho
Ribeirinho, como eu

Cantigas de portugueses
São com barcos no mar
Vão de uma alama para a outra
Com riscos de naufragar

Tens um anel imitado
Mas vais contente de o ter
Que importa o falsicado
Se é verdadeiro o prazer

Tua boca me diz sim
Tens olhos me dizem não
Ai, se gostasses de mim
E sem saber a razão

A vida é um hospital
Onde quase tudo falta
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta

Toda a noite ouvi os cães
P'la manhã ouvi os galos
Tristeza vem ter connosco
Prazeres é ir achá-los

Na noite de S. João
Há fogueiras e folias
Gozam uns e outros não
Tal como nos outros dias

Mandei-lhe uma carta
em papel perfumado
e com letra bonita
dizia ela tinha
um sorriso luminoso
tão triste e gaiato
como o sol de Novembro
brincando de artista
nas acácias floridas
na fímbria do mar

Sua pele macia
era suma-uma
sua pele macias
cheirando a rosas
seus seios laranja
laranja do Loge
eu mandei-lhe essa carta
e ela disse que não

Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
"por ti sofre o meu coração"
num canto "sim"
noutro canto "não"
e ela o canto do "não"
dobrou

Mandei-lhe um recado
pela Zefa do sete
pedindo e rogando
de joelhos no chão
pela Sra do Cabo,
pela Sta Efigénia
me desse a ventura
do seu namoro
e ela disse que não

Mandei à Vó Xica,
quimbanda de fama
a areia da marca
que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço
bem forte e seguro
e dele nascesse
um amor como o meu
e o feitiço falhou

Andei barbado,
sujo e descalço
como um monangamba
procuraram por mim
não viu ai não viu ai
não viu Benjamim
e perdido me deram
no morro da Samba

Para me distrair
levaram-me ao baile
do Sr. Januário,
mas ela lá estava
num canto a rir,
contando o meu caso
às moças mais lindas
do bairro operário

Tocaram a rumba
e dancei com ela
e num passo maluco
voamos na sala
qual uma estrela
riscando o céu
e a malta gritou
"Aí Benjamim"

Olhei-a nos olhos
sorriu para mim
pedi-lhe um beijo
lá lá lá lá lá
lá lá lá lá lá
E ela disse que sim


Ai se eu disser que as tremuras
Me dão nas pernas, e as loucuras
Fazem esquecer-me dos prantos
Pensar em juras

Ai se eu disser que foi feitiço
Que fez na saia dar ventania
Mostrar-me coisas tão belas
Ter fantasia
E sonhar com aquele encontro
Sonhar que não diz que não

Tem um jeito de senhora
E um olhar desmascarado
De céu negro ou céu estrelado, ou Sol
Daquele que a gente sabe.
O seu balanço gingado
Tem os mistérios do mar
E a certeza do caminho certo
que tem a estrela polar.

Não sei se faça convite
E se quebre a tradição
Ou se lhe mande uma carta
Como ouvi numa canção
Só sei que o calor aperta
E ainda não estamos no verão.

Quanto mais o tempo passa
Mais me afasto da razão
E ela insiste no passeio à tarde
Em tom de provocação
Até que num dia feriado
P´ra curtir a solidão
Fui consumir as tristezas
P´ró baile do Sr. João

Não sei se foi por magia
Ou seria maldição
Dei por mim rodopiando
Bem no meio do salão
Acabei no tal convite
Em jeito de confissão
E a resposta foi tão doce
Que a beijei com emoção
Só que a malta não gritou
Como ouvi numa canção

Da esplanada em vão me projecto
Para lá de onde me sinto
Tento ver sem me ver
Na esperança súbita de saber
Em que movimentos me finto

Naquele entrecruzar constante
Neste chocar sem chocar
Onde o espaço é quase tudo
E o tempo quase nada
Me tento em vão ver passar

Uns vão rindo outros sorrindo
Outros vão de rosto mudo
Há quem simplesmente vá indo
Na fé que o vento varra tudo

Mas eis que um olhar diferente
Vestes tu a esvoaçar
Como se a muitos prédios
Não nos tirassem o ar

Na fronte leva a certeza
De mar manso em lua cheia
Deixo 20 paus na mesa
Vou apanhar a boleia

Encontro uma ilha
Será maravilha ou tem
O que ninguém deu
Durante a viagem
P´ro outro lado

É mais outra ilha
Será que é mais outro porto
Em que se bebeu
E se esqueceu
Um outro fado

Há quem espere por nós assim
Mesmo ao meio da rota do fim
Há quem tenha os braços abertos
Para nos aquecer
E acenar no fim

Há quem tema por nós assim
Quando os barcos partem por fim
Há quem tenha os braços fechados
Com beijo jurado
Eu voltarei pra ti

Nunca é miragem
Sabemos que o cais é certo
É a estrela polar
Em sol aberto
A castigar

Ficamos mais perto
Sentimos mais dentro a força
Do que nós somos
E do que queremos
Reconquistar

Dança de nuvens
O vento é meu companheiro
P´ra me embalar
No meu repouso
De aventureiro

Lembras-me uma marcha de Lisboa
Num desfile singular,
Quem disse
Que há horas e momentos p´ra se amar

Lembras-me uma enchente de maré
Com uma calma matinal
Quem foi
Quem disse
Que o mar dos olhos também sabe a sal

Aas memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar

Queria viver tudo numa noite
Sem perder a procurar
O tempo, ou o espaço
Que é indiferente p´ra poder sonhar

Quem foi que provocou vontades
E atiçou as tempestades
E amarrou o barco ao cais
Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais

Enquanto foi só um bom momento deu
Enquanto foi só um pensamento meu
Deus, deu só num caso forte a mais.

Enquanto se achava graça ao que se escondeu
E a horas eram mais longas do que a verdade
Fez p'ra ser só outro caso mais.

Enquanto for só ternura de Verão
Eu vou,
Enquanto a excitação der para um carinho
Eu dou.
Traz
Uma le veza
Ah, mas concerteza
Eu dou
Um outro melhor bom dia.

Já trocámos nortadas por vento sul
Enquanto demos risadas foi-se o azul
Nem sei qual deles foi azul demais.

Mas não ficará só a sensação de cor
Nem sei o que o coração irá dizer de cor
Se o Inverno for, depois, duro demais.

Não se espantem se eu não fico aqui
Há sempre outro ver para o que vi
Das traseiras da tua casa deitas uma escada e por fim
Vens ter a mim, vens ter a mim
E eu qual Romeu digo-te o sim
Dou amor, a quem mo quer dar a mim

Julieta olha eu não sou Romeu
Mas vou dar-te o que ninguém te deu
Tenho os meus armários cheios de cartas a dizer "I love you"
Eu só quero alguém como tu
Vem pôr-me a nu, vem pôr-me a nu
Queria amor e amor deste tu

Cavalgando a linha das fronteiras
Travando ao luar
HE! HO! HE! HO!
Desabridos vamos por desfiladeiros

São de nós os que são estrangeiros
É da terra quem no mar andou
HE! HO! HE! HO!
A ver nas ondas desfiladeiros

Comentários